quarta-feira, 19 de março de 2014

Filme: Ela (Her)


Dirigido por: Spike Jonze
Com: Joaquin Phoenix, Amy Adams, Chris Patt, Rooney Mara, Olivia Wilde, Matt Letscher, Portia Doubleday e as vozes de Scarlett Johansson, Brian Cox, Bill Hader, Spike Jonze e Kristen Wiig.
Nacionalidade: EUA
2014

Para Ivana Bentes

Roberto Corrêa dos Santos (sob o filtro da Clínica-de-Artista)


Em horas confusas na realidade fora e dentro das redes (político-afetivas) de toda sorte, Ela, o filme em cartaz de Spike Jonze, oferece um certo pouso plástico-metafórico para que se possam pensar nossos modos arcaicos, atávicos, primários (primeiros) de nos apegarmos a coisas que de algum modo são em nós fatores/efeitos da vida do amar; vida sem a qual nossos aplicativos sensoriais engasgam, enguiçam, se tornam inúteis pois nem mesmo se permitem mais os saudáveis surpreender-se e gaguejar dos corpos.

Nenhuma surpresa o fato de precisarmos desde sempre de aplicativos virtuais (potenciais, metonímicos, anímicos) de afeto (de bons afetos), de estímulos e de calmarias d’almas: desde travesseiros, colchas (amorosos sempre, e para todas as classes), e edredons; sim: de edredrons: quem os tem sabe.

Pensamos nos edredons para bem de frente ficarmos ao Ela, um aplicativo digital, capaz de crescer, tendo o outro em disponibilidade, e capaz de fazer crescer quem o queira junto, quem aceite o com, venha de onde venha: vale, pois, o com: o co: e amar assim se poderia sempre constituir-se – faz o Ela compreendermos tal.

Ninguém, nenhuma das personagens, no âmbito do Ela, estranha esses amores nascidos fora da presença do corpo se tomado como carne, osso e sangue; mas muitas personas da plateia desdenham como inacreditáveis e falsos os amores assim: esquecem-se das emoções românticas de um enorme número de textos e obras que se fizeram crer apenas por meio de longas e distantes cartas e telegramas; ou as já pouco usadas técnicas de gozo e vida por ligações telefônicas.

Descartem-se, para seguir, muitos outros elos de contato sensorial-afetivo, e em virtus também, por meio de imagens, tais como (a) as mentais que conduzem a masturbações e o gozo; (b) as diretamente visuais atinentes aos skipes, vídeos etc.; (c) as gráficas: salas de bate-papo-escrito, os pretéritos e adoráveis desenhos do artista Zéfiro, as noveletas das revistas ditas eróticas, a exemplo: etc..

E também as paixões arrebatadoras, e nossas, pela letra: a letra é corpo, talvez dissessem – e o que não falta em Ela é letra. E pela voz, a voz é corpo, diriam – e o que não falta em Ela é voz, e que voz (respiração, ritmo, a granulagens levemente roucas bem no centro do aparelho fonador, a garganta).

E ainda: os aplicativos – está em Ela – abandonam-nos, pois crescem e seguem seus rumo: o aplicativo Ela passa a entender a pós-letra (já o aplicativo que somos, resta o estar, por muito tempo, preso a codificações duras, desconhecendo os móveis das afecções do espírito: e repetindo padrões muitas vezes culturalmente modelados). Ela, o aplicativo, bem mais adiante, introduz-se no que se encontra onde já não há palavras, ou seja, nos claros intervalos, nos espaçamentos maiores – cada vez maiores – dos silêncios vitais; Eles, ou Nós, os aplicativos que somos, dependemos da palavra contínua, não nos damos conta dos cortes e dos vãos, do zero atuante e neutro dos afetos vigorosos: afetos espaciais, não-temporais.

Um filme excepcional, o Ela? Não; não ainda: a um passo de: um filme, entretanto, de inteligência sutilíssima, e isso faz o aplicativo Nós/Eles – chame-se assim – avançar; com (e por) Ela, algo avança.

Avança-se quando se reescuta o Ela para especialmente reescutar-se o Eles/Nós; no caso, sob a sabedoria ético-teórica do Ela: o Eles/Nós vive o amar com Eles/Nós precariamente; logo esses Eles/Nós, os ditos humanos que nos julgamos os portadores do mérito de amar e de ser amado: um julgamento e agir da ordem do pequeno e da moral.

Eles/Nós quer viver com Ela, eis o distúrbio, ao modo como vive com o Eles/Nós: isso é: idealizando: tentando sem cessar corromper, ‘corrigir’, alterar as funções e os atos do outro Eles/ Nós que encontre: ‘amando’, dessa maneira, no aplicativo-o-outro (Eles/Nós) não o aplicativo Eles/Nós, e sim algo virtual-fantasmático, algo impossível de se obter ali, no aplicativo-amante, o aplicativo daquela hora; ama-se, no entanto, o fora imaginado e jamais o ali: nada de estranho (os alis escapam mesmo!); nada de inexato, desde que o Eles/Nós tenha o poder de cuidar (e divertir-se com) da coisa e dos fantasmas da coisa, e isso: a um só instante, talvez a um só instante.

E se o Ela pode dedicar-se a mais de seiscentos Eles/Nós (muito pouco!) é por ter a inteligência de, ao observar-nos, perceber que a fome de Eles/Nós supera esses números iniciais de Ela: a cada dia amamos mais, muito mais, mais e mais: aquele (o andar desencadeia); aquele (o riso move); aquele (o silêncio ativa); aquele (.....................................................................................).

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