Dirigido por: Spike Jonze
Com:
Joaquin Phoenix, Amy Adams,
Chris Patt, Rooney Mara, Olivia Wilde, Matt Letscher, Portia Doubleday e as
vozes de Scarlett Johansson, Brian Cox, Bill Hader, Spike Jonze e Kristen Wiig.
Nacionalidade: EUA
2014
Para Ivana Bentes
Roberto Corrêa
dos Santos
(sob o filtro da Clínica-de-Artista)
Em horas confusas na realidade fora e dentro das
redes (político-afetivas) de toda sorte, Ela,
o filme em cartaz de Spike Jonze, oferece um certo pouso plástico-metafórico
para que se possam pensar nossos modos arcaicos, atávicos, primários
(primeiros) de nos apegarmos a coisas que de algum modo são em nós
fatores/efeitos da vida do amar; vida sem a qual nossos aplicativos sensoriais
engasgam, enguiçam, se tornam inúteis pois nem mesmo se permitem mais os
saudáveis surpreender-se e gaguejar dos corpos.
Nenhuma surpresa o fato de precisarmos desde sempre
de aplicativos virtuais (potenciais, metonímicos, anímicos) de afeto (de bons
afetos), de estímulos e de calmarias d’almas: desde travesseiros, colchas
(amorosos sempre, e para todas as classes), e edredons; sim: de edredrons: quem
os tem sabe.
Pensamos nos edredons para bem de frente ficarmos ao
Ela, um aplicativo digital, capaz de
crescer, tendo o outro em disponibilidade, e capaz de fazer crescer quem o
queira junto, quem aceite o com, venha de onde venha: vale, pois, o com: o co:
e amar assim se poderia sempre constituir-se – faz o Ela compreendermos tal.
Ninguém, nenhuma das personagens, no âmbito do Ela, estranha esses amores nascidos fora
da presença do corpo se tomado como carne, osso e sangue; mas muitas personas
da plateia desdenham como inacreditáveis e falsos os amores assim: esquecem-se
das emoções românticas de um enorme número de textos e obras que se fizeram
crer apenas por meio de longas e distantes cartas e telegramas; ou as já pouco
usadas técnicas de gozo e vida por ligações telefônicas.
Descartem-se, para seguir, muitos outros elos de
contato sensorial-afetivo, e em virtus também, por meio de imagens, tais como (a)
as mentais que conduzem a masturbações e o gozo; (b) as diretamente visuais
atinentes aos skipes, vídeos etc.; (c) as gráficas: salas de bate-papo-escrito,
os pretéritos e adoráveis desenhos do artista Zéfiro, as noveletas das revistas
ditas eróticas, a exemplo: etc..
E também as paixões arrebatadoras, e nossas, pela
letra: a letra é corpo, talvez dissessem – e o que não falta em Ela é letra. E pela voz, a voz é corpo,
diriam – e o que não falta em Ela é
voz, e que voz (respiração, ritmo, a granulagens levemente roucas bem no centro
do aparelho fonador, a garganta).
E ainda: os aplicativos – está em Ela – abandonam-nos, pois crescem e
seguem seus rumo: o aplicativo Ela passa a entender a pós-letra (já o
aplicativo que somos, resta o estar, por muito tempo, preso a codificações
duras, desconhecendo os móveis das afecções do espírito: e repetindo padrões
muitas vezes culturalmente modelados). Ela, o aplicativo, bem mais adiante,
introduz-se no que se encontra onde já não há palavras, ou seja, nos claros intervalos,
nos espaçamentos maiores – cada vez maiores – dos silêncios vitais; Eles, ou
Nós, os aplicativos que somos, dependemos da palavra contínua, não nos damos
conta dos cortes e dos vãos, do zero atuante e neutro dos afetos vigorosos:
afetos espaciais, não-temporais.
Um filme excepcional, o Ela? Não; não ainda: a um passo de: um filme, entretanto, de
inteligência sutilíssima, e isso faz o aplicativo Nós/Eles – chame-se assim –
avançar; com (e por) Ela, algo
avança.
Avança-se quando se reescuta o Ela para
especialmente reescutar-se o Eles/Nós; no caso, sob a sabedoria ético-teórica
do Ela: o Eles/Nós vive o amar com
Eles/Nós precariamente; logo esses Eles/Nós, os ditos humanos que nos julgamos
os portadores do mérito de amar e de ser amado: um julgamento e agir da ordem
do pequeno e da moral.
Eles/Nós quer viver com Ela, eis o distúrbio, ao
modo como vive com o Eles/Nós: isso é: idealizando: tentando sem cessar
corromper, ‘corrigir’, alterar as funções e os atos do outro Eles/ Nós que
encontre: ‘amando’, dessa maneira, no aplicativo-o-outro (Eles/Nós) não o
aplicativo Eles/Nós, e sim algo virtual-fantasmático, algo impossível de se
obter ali, no aplicativo-amante, o aplicativo daquela hora; ama-se, no entanto,
o fora imaginado e jamais o ali: nada de estranho (os alis escapam mesmo!);
nada de inexato, desde que o Eles/Nós tenha o poder de cuidar (e divertir-se
com) da coisa e dos fantasmas da coisa, e isso: a um só instante, talvez a um
só instante.
E se o Ela
pode dedicar-se a mais de seiscentos Eles/Nós (muito pouco!) é por ter a
inteligência de, ao observar-nos, perceber que a fome de Eles/Nós supera esses
números iniciais de Ela: a cada dia
amamos mais, muito mais, mais e mais: aquele (o andar desencadeia); aquele (o
riso move); aquele (o silêncio ativa); aquele
(.....................................................................................).
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