sexta-feira, 4 de abril de 2014

Anchieta, santo e terrorista

Hilde Knopfler



 

O Papa Francisco tem produzido santos em série. Na última quinta-feira, 3 de abril de 2014, ele canonizou os canadenses Francisco de Laval (1623-1708), que foi bispo de Québec, a freira Maria da Encarnação (1599-1672), fundadora de um mosteiro da ordem das freiras Ursulinas na mesma cidade, e o jesuíta espanhol José de Anchieta (1534-1597).

A canonização de Padre Anchieta foi por decreto, dispensando a exigência de comprovação de um milagre. Segundo a Rádio Vaticano, o Papa ouviu um relatório sobre a vida e a obra do chamado apóstolo do Brasil e, em seguida, assinou o decreto que o reconhece como santo.

Se esse relatório foi honesto, baseado em evidências, o Papa sabe que Anchieta foi um terrorista. Se considerarmos a definição dicionarizada de terrorismo, “modo de impor a vontade pelo uso sistemático do terror”, “emprego sistemático da violência para fins políticos, especialmente a prática de atentados e destruições por grupos cujo objetivo é a desorganização da sociedade existente e a tomada do poder”, “ameaça do uso da violência a fim de intimidar uma população ou governo, gerada ou motivada por razões ideológicas ou políticas”[i], não há como negar que o colonizador José de Anchieta foi um terrorista assumido, como ele próprio deixou bem claro em seus escritos:

Os impedimentos que há para a conversão e perseverar na vida cristã de parte dos Índios são seus costumes inveterados [...] assim aos inimigos, como a estes Índios [...] que por temos se hão de converter mais que por amor [...] Parece-nos agora que estão as portas abertas nesta Capitania para a conversão dos gentios, se Deus nosso senhor quiser dar maneira com que sejam postos debaixo de jugo, porque para este gênero de gente não há melhor pregação do que espada e vara de ferro[ii].

Se valer a definição de terrorismo dada pelos documentos oficiais dos EUA, como “uso calculado da violência ou da ameaça de violência para atingir objetivos políticos, religiosos ou ideológicos, em sua essência, sendo isso feito por meio de intimidação, coerção ou instilação do medo”[iii], é preciso admitir que a própria Igreja Católica Apostólica Romana promoveu sistematicamente, ao longo de sua história, por quase todo o planeta, esse tipo de atrocidade.

E ainda hoje os índios brasileiros continuam sendo assassinados, catequizados e espoliados. Índio é nós![iv].



[i] TERRORISMO. In: HOUAISS. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
[ii] ANCHIETA, Joseph. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões do Padre José de Anchieta.  Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 333.
[iii] PELBART, Peter Pal. O avesso do niilismo: cartografias do esgotamento. São Paulo: N1 Edições, 2013, p. 172.
[iv] Campanha “Índio é nós”. Disponível em: http://www.indio-eh-nos.eco.br/.

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