sexta-feira, 4 de julho de 2014

Filme: Alabama Monroe



Dirigido por: Felix Van Groeningen,
Com: Johan Heldenbergh, Veerle Baetens, Nell Cattrysse, Geert Van Rampelberg, Jan Bijvoet.
Nacionalidade: Belga
2012


Alabama Monroe e as quartas de final: uma alucinante lucidez

Andréia Delmaschio




Não posso dizer simplesmente que “tive o prazer” de assistir ao filme “Alabama Monroe”, no Cine Jardins. Para bem e para mal, a vida vai muito além do prazer e “Alabama Monroe” é um certo retrato da vida – impiedoso como este mundo que criamos e que ora sustentamos.

Enfim, tirou-me o sono e aqui estou às voltas com ele às três da madruga, mas não importa, porque mais tarde tem futebol, o Brasil ganhará da Colômbia e assim todas as desgraças humanas serão redimidas. Ao menos as dos humanos que forem campeões. Não me esquecerei da lição de Chico Buarque: “O futebol foi feito para humilhar o adversário.”

Assim é a vida quando apenas a projetamos: nosso time não perde cobranças de pênaltis, nossos familiares não têm câncer, o amor é infinito e nós mesmos não morremos. A não ser por um acidente rápido e indolor, muito distante no tempo e bem no fim da doce e longa vida que nos foi destinada e abençoada pela nossa estrela! Ou seja, estamos na vida como num estádio. E nos achamos nisso tão protagonistas que sentimos que Deus é bom e ouve as nossas preces, curando-nos do mal e protegendo a nossa família, a despeito, por exemplo, da fome na Etiópia.

Mas na vida como ela é nem sempre é possível enfiar gols. Nem sempre, como veremos.
“Alabama Monroe” é de uma coragem assustadora. O discurso gritado no palco pelo protagonista é o núcleo duro do filme e foi acusado de “panfletário”. Na mesma resenha em que o crítico destaca (terá ele visto o filme?) a bela trilha sonora e o lindo casal de atores – algo como um lindo casal de pássaros, ainda que em meio ao Apocalipse.

O protagonista de “Alabama Monroe” diz coisas óbvias, por isso mesmo as mais difíceis de se perceber e de dizer. Por essa razão algumas pessoas saem reclamando. Digamos, apenas para ser fiéis ao clima geral: querendo o seu dinheiro de volta. Uma senhora atrás de mim entoava repetidamente o mantra “Sangue de Jesus tem poder!” – tanto nas cenas de amor entre o casal quanto em meio ao desabafo inflamado do protagonista. Que bom que ela tenha sido tocada, de algum modo, pelo filme. E, principalmente, que bom que tenha podido ler as legendas. Chegou-se a um tal momento em que não ser completamente indiferente e conseguir ler as legendas são quase que dois trunfos.

E ainda se vai ao cinema como se ao estádio. Eu mesma tive ímpetos de me retirar, no início daquela quimioterapia a que fui submetida ali, mas ao cinema também se vai para se deixar transformar. Às vezes é como perder nas quartas de final. Isso também ensina, recoloca no lugar, humilhados ou simplesmente mais alertas. Porém ainda vivos.

Mas o leitor não se engane: o que “Alabama Monroe” menos faz é um retrato parado, estanque da vida. Ele é antes um libelo de transformação. Resumindo: vivemos num tempo em que existem células-tronco que podem dirimir muito sofrimento e mesmo prolongar a vida, mas preferimos nos aferrar ao nosso medo e preconceito, crenças e ilusões.

Curiosamente, o mesmo lado que tende para a religiosidade e a mistificação (representado pela passional protagonista que praticamente tatua um sobre outro os nomes dos seus príncipes namorados encantados) é o que primeiro sucumbe ao peso das desgraças e desiste, ela própria, do amor e da vida. A sua religiosidade – seja ela dérmica ou epidérmica – não é capaz de livrá-la da morte. A não ser, até onde se sabe, no sonho de uma pós-vida.

Enquanto isso, o protagonista ateu segue amando e tentando inclusive livrá-la do suicídio, crítico porém de toda crença numa outra vida que venha nos redimir desta. E o faz justo por crer nesta, embora perceba, com alucinante lucidez, que criamos e sustentamos um mundo impiedoso. E, pior: política e institucionalmente, ou seja, em conjunto, nada fazemos para dele sair. Paradoxalmente, no fundo a única saída que as nossas sociedades propõem (a despeito do avanço da ciência e embaladas pelas ilusões de um pós-vida) é a morte.

Nenhum comentário:

Postar um comentário